Mercado Livre de Energia para todos: o Decreto nº 13.097/26 aprimorando o caminho

Foi publicado o Decreto nº 13.097/2026, que regulamenta a abertura do Mercado Livre de Energia para os consumidores atendidos em baixa tensão, ou seja, aqueles atendidos em tensão inferior a 2,3 kV, onde estão grande parte dos pequenos comércios, pequenas indústrias e, claro, os consumidores residenciais.

O Decreto aprofunda e regulamenta o caminho que já havia sido estabelecido pela Lei nº 15.269/2025 e mantém as datas previstas para a abertura:

  • 25 de novembro de 2027: consumidores industriais e comerciais de baixa tensão poderão escolher seu fornecedor de energia;

  • 25 de novembro de 2028: a possibilidade chega aos demais consumidores, inclusive os residenciais.

A partir daí, milhões de brasileiros poderão escolher de quem comprar a energia elétrica.

Mas atenção: isso não significa que vamos deixar de precisar da distribuidora.

Você escolhe quem vende a energia. Mas a rede continua sendo da distribuidora.

Essa talvez seja uma das informações mais importantes para quem não acompanha diariamente o setor elétrico.

No Mercado Livre, você poderá contratar a energia com um agente varejista diferente da sua distribuidora.

Mas quem continuará transportando e entregando fisicamente essa energia até a sua casa ou empresa será a distribuidora da sua região.

Ou seja: a energia pode ser comprada de outro fornecedor; a rede elétrica continua sendo utilizada e remunerada.

É a mesma lógica que já conhecemos no Mercado Livre atual, mas que passará a alcançar também os pequenos consumidores.

E aqui começa uma mudança bastante interessante na relação do brasileiro com a energia.

Será que vamos comprar energia como escolhemos um plano de celular?

O Decreto determina que a CCEE deverá disponibilizar uma plataforma centralizada para comparação de ofertas de produtos e preços dos agentes de comercialização.

Isso significa que podemos caminhar para algo muito mais próximo do que já fazemos em outros mercados:

– Fornecedor A: produto X, preço Y, determinadas condições.
– Fornecedor B: produto diferente, outro preço, outras condições.

E o consumidor compara e escolhe.

Além disso, a ANEEL deverá regulamentar um produto padrão e um preço de referência, justamente para facilitar a comparação das ofertas e aumentar a transparência para um público que, em sua grande maioria, não conhece as complexidades do mercado de energia.

É o começo do sonho da Joi de abrir um aplicativo e escolher de quem ela quer comprar energia (ela já fala isso isso há uns 8 anos).

O começo, porque ainda existe bastante trabalho regulatório pela frente.

Abertura do Mercado Livre para todos os consumidores.

E se a empresa que vende energia para você quebrar?

Esse é um dos pontos mais importantes do Decreto.

Imagine o seguinte cenário: Você saiu do mercado cativo, entrou no Mercado Livre e contratou uma comercializadora varejista.

Por algum motivo, essa empresa deixa de representá-lo, por encerramento contratual, inexecução, desligamento perante a CCEE ou perda da habilitação para atuar como varejista.

A pergunta é: quem fornece energia para você enquanto essa situação não é resolvida?

É aí que entra o Supridor de Última Instância, o SUI.

Ele funcionará como uma espécie de rede de segurança do mercado.

O objetivo é garantir atendimento emergencial e temporário ao consumidor adimplente enquanto ele contrata um novo fornecedor ou retorna ao mercado regulado.

Até 31 de dezembro de 2030, esse papel será exercido exclusivamente pelas próprias distribuidoras.

A partir de 1º de janeiro de 2031, outras pessoas jurídicas também poderão prestar o serviço, de acordo com a regulamentação que ainda será estabelecida pela ANEEL.

E existe um detalhe importante: ficar no SUI não deverá ser confortável por muito tempo.

O Decreto prevê que as tarifas do Supridor de Última Instância sejam crescentes, justamente para incentivar o consumidor a encontrar um novo fornecedor ou retornar ao mercado regulado. A ANEEL poderá, inclusive, estabelecer um prazo máximo de atendimento pelo SUI.

Ou seja: é uma solução de emergência, não um novo modelo de contratação permanente.

E o medidor? Não vamos precisar trocar milhões deles antes da abertura

Outro ponto extremamente relevante foi retirar uma possível barreira operacional gigantesca.

Imagine se, para permitir a entrada de milhões de consumidores no Mercado Livre, fosse necessário primeiro trocar o medidor de cada residência e pequeno comércio brasileiro.

A abertura poderia virar um verdadeiro gargalo.

O Decreto estabelece que a substituição do sistema de medição não pode ser condição impeditiva para a migração dos consumidores de baixa tensão.

Nos termos que ainda serão regulamentados pela ANEEL, o consumidor poderá continuar utilizando o sistema de medição existente.

Mas existe também a possibilidade de solicitar um medidor inteligente.

Nesse caso, desde que exista infraestrutura técnica e de comunicação disponível, o consumidor poderá solicitar a substituição, arcando com os custos associados.

Essa é uma ótima opção, imagine ter preço, medição e gestão cada vez mais inteligentes.

Saber quando a energia está mais barata… Deslocar determinadas cargas para esses horários.

Programar equipamentos para funcionarem nos melhores momentos. Usar armazenamento. Automatizar consumo!

Isso é gestão de energia de verdade.

A ANEEL ganhou uma bela lista de tarefas

Se alguém ganhou trabalho com a publicação desse Decreto, foi a ANEEL.

A Agência ainda precisará regulamentar diversos pontos essenciais para fazer essa abertura funcionar na prática.

Entre eles estão:

  1. Tarifas aplicáveis ao mercado livre e regulado;
  2. Produto padrão;
  3. Preço de referência;
  4. Encargos;
  5. Tarifas do Supridor de Última Instância;
  6. Regras simplificadas de migração e portabilidade;
  7. Medição;
  8. Agregação de medição;
  9. Faturamento;
  10. Cobrança;
  11. Suspensão do fornecimento;
  12. Compartilhamento de dados;
  13. Condições isonômicas para migração e regras para evitar condutas anticoncorrenciais.

Ou seja: a abertura está definida. Mas o desenho operacional desse novo mercado ainda está sendo construído.

E é justamente essa regulamentação que vai determinar se teremos um mercado realmente simples, competitivo e atrativo para o consumidor de baixa tensão.

Quem possui benefício tarifário precisa fazer conta antes de migrar

Outro ponto que merece muita atenção: os benefícios tarifários do mercado regulado não acompanham o consumidor para o Mercado Livre.

O Decreto cita expressamente a Tarifa Social de Energia Elétrica e os descontos concedidos às atividades de irrigação e aquicultura.

Quem tiver direito a esses benefícios precisará escolher: permanecer no mercado regulado e manter o benefício ou migrar para o Mercado Livre e contratar energia em condições de mercado.

Isso reforça algo que a Joi fala e provavelmente ainda vai repetir muitas vezes nos próximos anos: Mercado Livre não significa automaticamente energia mais barata.”

É preciso fazer conta.

É possível que migração não seja tão atrativa para todo mundo

Apesar de defender a liberdade de escolha do consumidor, a Joi acredita que a migração não será economicamente interessante para todos os consumidores de baixa tensão.

Especialmente para residências com baixo consumo.

Existem custos de rede, encargos, custos da comercialização varejista, riscos contratuais e uma série de componentes que continuarão existindo independentemente de quem venda a energia.

Então, quando o mercado abrir, a pergunta correta não será: “Eu posso migrar?”

A pergunta será: “Para o meu perfil de consumo, vale a pena migrar?”

E são coisas completamente diferentes.

E se eu me arrepender?

Existe ainda outra mudança interessante.

Para os consumidores de baixa tensão abrangidos pelo Decreto, será garantido o retorno ao Ambiente de Contratação Regulada (ACR), desde que a distribuidora seja informada com antecedência de 1 ano.

Esse prazo poderá inclusive ser reduzido pela própria distribuidora ou pela regulamentação da ANEEL.

É uma mudança importante em relação à lógica histórica do Mercado Livre, na qual o retorno ao mercado regulado sempre foi muito mais restritivo.

Isso reduz um dos receios naturais do pequeno consumidor: “E se eu entrar no Mercado Livre e depois quiser voltar?”

Agora existe um caminho mais claro para isso.

A abertura está chegando. Mas a verdadeira transformação vem depois.

O Decreto nº 13.097/2026 é, sem dúvida, mais um marco na modernização do setor elétrico brasileiro.

Mas ele não encerra o processo… Na verdade, ele abre uma nova etapa.

A partir de agora, teremos que acompanhar de perto como a ANEEL vai regulamentar esse mercado, como serão estruturados os produtos dos agentes varejistas, como os custos serão apresentados ao consumidor e, principalmente, se a competição realmente produzirá melhores ofertas.

Porque a grande mudança não será simplesmente permitir que uma residência compre energia de uma empresa diferente.

A verdadeira transformação acontece quando o consumidor deixa de ser apenas alguém que recebe uma conta de luz no final do mês e passa a tomar decisões sobre como, quando e de quem comprar energia.

A abertura do mercado está chegando.

Agora precisamos garantir que, junto com a liberdade de escolha, venha também aquilo que o consumidor realmente precisa: informação, transparência e gestão de energia.

Na Comunidade Energês, você acompanha as transformações do setor elétrico, aprende na prática e encontra uma comunidade de profissionais que também estão se preparando para o que vem pela frente.

Porque o mercado está mudando. E quem estiver preparado vai enxergar as oportunidades primeiro.

Faça parte da Comunidade Energês e prepare-se para a próxima fase do setor elétrico.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aquecimento Solar

Conceitos iniciais. Conhecimento de Coletores e Boilers. Projeto SAS - Sistema de Aquecimento Solar. Planilha de Dimensionamento Aquecimento Solar. Como Dimensionar projeto SAS. Aquecimento Solar e Aquecimento Piscina. MasterClass de Aquecimento Solar.

Energia Fotovoltaica

Principais Conceitos. Conhecimento de equipamentos de usinas FV. Visita Técnica, Solicitação de Acesso, Solicitação de Vistoria. Comissionamento. Licenciamento Ambiental SC. Erros em sistemas FV. Usinas Solares Centralizadas (Outorga ANEEL e Medição de dados Solarimétricos). Como dimensionar um sistema conectado à rede. Dimensionamento de sistema Off-grid. Planilha de Dimensionamento On-grid. Vendas. Estudos Econômicos e Fluxo de Caixa Grandes Usinas na GD.

Eficiência Energética

Práticas de Eficiência Energética. Como fazer uma Auditoria Energética. Eficiência aplicada na iluminação. Planilha de Eficiência Energética para substituição de lâmpadas. Planilha de Gestão e Análise de Modalidades Tarifárias. Eficiência aplicada às edificações. Gestão de Energia (ISO 50.001).

Tarifa e Fatura de Energia

Manual da Conta de Energia. Minicurso Estrutura Tarifária. Estrutura e Composição Tarifária. Planilha de Modalidade Tarifária. Gestão de Energia no Agronegócio.

Energia Eólica

Conceitos iniciais. Medição de Dados Anemométricos. Potência do Vento. Materiais e propriedades construtivas do Aerogerador. Outorga e Implantação de usina eólica. Planilhas de Prospecção de Potencial Energético (usando dados de medição de vento real e dados de vento estimados do local).

Biomassa

Introdução, Conceitos, Tipo, Conversão e Usos da Biomassa. Como fazer cálculo de produção de biogás. Planilha de Geração de Biogás de Suínos, de Aterro Sanitário e de Efluentes. Dimensionamento Biodigestores. Outorga ANEEL.

Energia Hidrelétrica

Conceitos iniciais. Componentes de uma Usina e Medição de dados Fluviométricos. Processo de Outorga de Água. Usos da Água. Projeto Básico. Etapas de Projeto Básico. Prospecção de Potencial Energético (Planilha cálculo para CGH). Planilha de potência mecânica e elétrica. Estudos Econômicos e Fluxo de Caixa de Usinas.

Energias Renováveis e Carreira

Introdução às Energias Renováveis. Energia Geotérmica. Energia Maremotriz e das Ondas. Performance de Sistemas de Geração de Energia. Oportunidades na prática no setor. Como descobrir o melhor cargo para você conforme sua personalidade. Características e ferramentas para ser um profissional valorizado. Jornada do Profissional de Energia. Maratona do Profissional de Energia.

Novas Tecnologias


Energia Eólica Off-Shore. Hidrogênio Verde. Armazenamento de energia - baterias. Planilha de baterias para sistemas off-grid e para sistemas híbridos. Mercado de Carbono. Implantação de ESG. Planilha de baterias para sistemas off-grid e para sistemas híbridos

Curso Carregadores Elétricos – Sua nova fonte de renda

Setor Elétrico e Geração Distribuída

Introdução ao setor elétrico. Conhecendo órgãos regulamentadores do setor. Agenda regulatória da Aneel. Desmitificando conceitos complexos e temas polêmicos (Garantia de Suprimento, PLD horário, Separação Lastro e Energia, GSF...). Planilha de Estudos Econômicos Financeiros. Modernização do setor elétrico. Processo de Compensação de Energia. Novas Regras da Geração Distribuída (Lei 14.300/2022). Resolução 1000/2021. Planilha para cálculo de Simultaneidade. Performance de sistemas de geração de energia: Fator de Capacidade e PR. Planilha de cálculo Fator de Capacidade.

Mercado Livre de Energia

Conceitos iniciais. Processo de Abertura do Mercado Livre. Por dentro de uma Comercializadora de Energia (Front, Back e Middle Office). Migração para o Mercado Livre. Planilha de Estudo de Viabilidade para Mercado Livre. Processo de Adesão na CCEE. Geradores de Energia (Produtor Independente e Autoprodutor).