Quem trabalha no setor elétrico brasileiro sabe que é um mercado interativo. Oscilações bruscas no preço da energia, mudanças climáticas cada vez mais imprevisíveis e um cenário regulatório em constante transformação colocam à prova a capacidade de adaptação de consumidores, geradores e comercializadores.
É nesse ambiente desafiador que o Battery Energy Storage System (BESS) vem se consolidando como uma ferramenta estratégica para proteção financeira e operacional. Em outras palavras: o BESS deixou de ser apenas um backup tecnológico e passou a ser um verdadeiro instrumento de hedge no mercado de energia.
A palavra hedge, tradicionalmente usada no mercado financeiro, refere-se a qualquer mecanismo de proteção contra riscos, principalmente os de volatilidade de preços. No setor elétrico, o conceito é o mesmo: proteger o caixa e a previsibilidade de custos frente às oscilações do mercado e aos riscos de suprimento.
Por que o BESS virou um hedge real no setor elétrico?
Quando o assunto é volatilidade, o exemplo mais recente vem do comportamento do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) em 2024. No Sudeste, por exemplo, o PLD ultrapassou os R$ 500/MWh durante várias semanas, impulsionado por uma combinação de calor extremo e reservatórios abaixo da média histórica. Quem estava exposto diretamente ao mercado de curto prazo sentiu o impacto no balanço financeiro.
Agora imagine uma indústria eletrointensiva como uma fábrica de cimento ou uma siderúrgica operando no mercado livre. Com um sistema BESS instalado, essa indústria poderia ter carregado as baterias nas madrugadas, quando o preço estava baixo, e usado a energia armazenada nos horários de pico. Assim, o resultado seria uma redução imediata nos custos com energia no exato momento em que o mercado ficou mais caro.
O mesmo raciocínio vale para um parque solar no Nordeste que, ao sofrer restrições de despacho pelo ONS em momentos de sobreoferta, poderia armazenar a geração excedente para vender mais tarde, quando o sistema estivesse demandando energia.
Estratégias de hedge com BESS: do consumidor ao operador do sistema
A versatilidade do BESS permite várias estratégias de hedge. Algumas delas já começam a ser testadas ou aplicadas no Brasil, veja agora 7 soluções:
1 - Arbitragem de Energia
O caso mais clássico. Carrega-se o sistema nos períodos de PLD baixo (geralmente de madrugada ou em dias com muita geração renovável) e se utiliza ou vende essa energia nos períodos de preço alto.
Em mercados como o Norte e Nordeste, com forte penetração solar e eólica, essa janela de arbitragem está ficando cada vez mais atraente.
2 - Redução de Demanda em Horário de Ponta
Para consumidores no mercado livre, o custo do horário de ponta pode representar até 30% da conta de energia. O BESS permite reduzir ou até eliminar o consumo da rede nesses períodos críticos, fazendo o mesmo raciocínio de arbitragem de energia.
3 - Suporte a Contratos de Venda de Energia
Geradores renováveis, especialmente eólicos e solares, enfrentam o desafio da variabilidade, ou seja, sua geração é incerta, porém seu contrato de venda de energia é certo, e geralmente conta com penalidades altas em caso de não entrega da energia.
O BESS atua como um seguro de entrega, evitando penalidades por descumprimento de contratos ou a necessidade de comprar energia de última hora no mercado de curto prazo.
4 - Proteção Contra Blackouts e Interrupções
Setores como mineração, petroquímica e data centers sabem que uma parada não programada custa caro, às vezes milhões de reais por hora. O BESS entra como um hedge operacional, garantindo continuidade até a rede ser restabelecida.
5 - Hedge de Capacidade
Com a criação do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) com um produto específico para baterias, o Brasil está abrindo espaço para que recursos como o BESS recebam remuneração por estar disponível para o sistema, oferecendo potência firme quando necessário.
6 - Hedge Sistêmico para o ONS
Não é só o consumidor que precisa de proteção. O próprio Operador Nacional do Sistema (ONS) começa a olhar para o BESS como um aliado estratégico. Portanto, com a crescente participação de renováveis, o Brasil enfrenta desafios de estabilidade, como perda de inércia e dificuldades de controle de frequência e tensão.
Sistemas de BESS com tecnologia grid-forming conseguem atuar como referência de tensão e frequência, oferecendo uma resposta muito mais rápida que usinas convencionais.
Além disso, soluções com capacidade de black start podem ser decisivas em casos de blecautes generalizados, reduzindo o tempo de recomposição do sistema e evitando prejuízos bilionários à economia.
7 - Mitigação de Encargos e Sinal Locacional
Com a tendência de evolução regulatória, incluindo novos sinais locacionais de preço e encargo de transmissão, o BESS pode ajudar empresas a reposicionar seu consumo ou geração para reduzir exposição a esses custos. Quem atua no mercado já acompanha os estudos da EPE e da ANEEL sobre esse tema.
O futuro do Hedge com BESS no Brasil
O avanço da tecnologia, a queda nos custos de baterias e as mudanças no desenho de mercado estão criando um terreno fértil para o BESS assumir um papel cada vez mais relevante na gestão de risco energético.
Com a previsão de que o mercado livre atinja cerca de 60% de participação até 2030, segundo projeções da CCEE, o número de empresas expostas a volatilidade deve crescer exponencialmente.
Meu conselho é: quem começar agora a entender o potencial do BESS não vai apenas reduzir custos, vai ganhar flexibilidade operacional, criar novas fontes de receita e estar melhor preparado para um mercado de energia cada vez mais dinâmico.
Se antes o BESS era visto como uma solução de nicho, hoje ele se consolida como um ativo financeiro e técnico estratégico, capaz de proteger o caixa, garantir estabilidade e até gerar novas receitas.
Colunista Convidada Energês: Mariana Goudel
Engenheira civil com pós-graduação em Gestão de Negócios e ampla experiência no setor de energia renovável. Atuou no desenvolvimento de novos negócios em multinacionais e, atualmente, é Sales Manager na Trina Storage, liderando a divisão de sistemas de armazenamento de energia (BESS) no Brasil e na Argentina. Apaixonada por desafios, busca constantemente explorar e aplicar novas tecnologias.
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