Por muito tempo, quando se falava em energia solar, a imagem clássica era a de painéis fotovoltaicos instalados em telhados residenciais. Esse cenário ainda é uma realidade no Brasil, mas uma nova onda de inovação vem transformando o setor: a tokenização de usinas solares, impulsionada pela tecnologia blockchain.
Essa tendência vai muito além da geração descentralizada de energia. Também descentraliza o acesso aos investimentos em energia renovável, oferecendo oportunidades para pequenos investidores entrarem em um mercado antes dominado por grandes grupos econômicos. Além dos benefícios sustentáveis do incentivo a uma fonte renovável de energia.
O que é a tokenização de usinas solares?
A tokenização consiste em transformar ativos físicos, como uma usina solar, em frações digitais chamadas tokens. Portanto, cada token representa uma parte daquele ativo real e pode ser negociado de forma segura em plataformas baseadas em blockchain.
Dessa forma, isso significa que qualquer pessoa pode se tornar coinvestidora de uma usina solar, basta comprar um token, da mesma forma que se compra uma ação na bolsa ou uma criptomoeda.
Assim, a operação garante transparência, segurança jurídica e liquidez, graças aos contratos inteligentes (smart contracts) que automatizam e registram cada transação na blockchain.
O modelo da IPE Assets, na imagem a seguir, é um bom exemplo: os tokens financiam a construção da usina, que passa a injetar energia na rede da Celesc. Essa energia é compensada em uma cooperativa, e os rendimentos são distribuídos proporcionalmente aos investidores. Todo o processo é 100% online, com liquidez imediata, sem burocracia e com alta transparência.
Por que a tokenização é uma revolução?
Mais do que um avanço tecnológico, a tokenização de usinas solares é uma ferramenta poderosa de inclusão. Isso porque ela permite que cidadãos comuns participem da transição energética e se beneficiem economicamente da produção de energia limpa.
Ou seja, as ações sobre sustentabilidade saem do campo das ideias e reflexões e ganham espaço na vida real das pessoas, conectando a tecnologia, de fato, à responsabilidade ambiental e ao retorno financeiro.
O Brasil como referência da tokenização de energia solar ?
Atualmente, o Brasil já começa a se destacar nesse cenário inovador. Isso porque diversas iniciativas vêm sendo desenvolvidas para integrar a tokenização de usinas solares à estrutura do mercado energético nacional. Em alguns casos, cada token equivale a uma cota da geração mensal de energia da usina, e os rendimentos são automaticamente repassados ao investidor.
As startups IPE Assets, Light DeFi e Enycoin, são exemplos que têm usado criptomoedas para financiar usinas e fazendas solares em Santa Catarina, na Bahia e em Minas Gerais. A parceria entre Mercado Bitcoin e Comerc criou tokens ligados a créditos de energia, enquanto a Suns Brasil lançou a primeira usina tokenizada do Paraná. Já o Grupo HCC, com apoio da Liqi, desenvolve uma planta de 3,5 MWp no Rio Grande do Sul. Esses exemplos mostram como a tokenização vem democratizando o acesso ao investimento em energia limpa em todo o país.
Essa inovação acompanha o crescimento acelerado do setor solar no país. Segundo a ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), a expectativa é de que o Brasil adicione 13,2 GW de capacidade instalada em 2025, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. Assim, esse ritmo de crescimento abre espaço para novos modelos de negócio, especialmente os baseados em tecnologia e descentralização.
Por outro lado, a tokenização no país ainda tem sua regulamentação em desenvolvimento. Assim, conta com base legal por meio da Lei 14.478/22, que define ativos virtuais e coloca o Banco Central como regulador das plataformas (VASPs), além de diretrizes da CVM, como a Resolução 88/22 (crowdfunding) e a 175/23 (fundos de investimento). Tokens de renda fixa e recebíveis já são considerados valores mobiliários, exigindo registro. Mas, apesar dos avanços, ainda há lacunas regulatórias específicas para ativos de energia, que devem ser desenvolvidas com o crescimento desse mercado.
Desafios e oportunidades da tokenização de usinas solares
Como toda inovação, esse modelo também enfrenta obstáculos. Alguns dos principais desafios são:
-Falta de regulamentação específica para a tokenização no setor energético
-Falta de educação financeira sobre o modelo
-Necessidade de maior maturidade tecnológica nas plataformas de tokenização
-Infraestrutura de distribuição elétrica ainda precisa ser modernizada
Por outro lado, algumas das principais oportunidades são:
-Combinação de energia solar, blockchain e princípios ESG
-Aceleração da transição energética no Brasil
-Democratização do acesso aos benefícios econômicos da energia limpa
-Inclusão de pequenos investidores em um mercado antes restrito a grandes grupos
No geral, o cenário é promissor. Certamente, a combinação entre energia solar, blockchain e os princípios ESG representa uma resposta inteligente a dois grandes desafios contemporâneos: acelerar a transição energética e democratizar o acesso aos seus benefícios econômicos.
A transformação digital da energia solar
A tokenização de usinas solares marca uma nova etapa na revolução energética. Consequentemente, mais do que captar luz solar, estamos agora captando oportunidades com base em tecnologia, inovação e propósito.
Em outras palavras, a energia limpa já deixou os telhados. Assim, ela está agora também nas carteiras digitais através da tokenização, provando que o futuro da energia será cada vez mais digital, descentralizado e participativo. Portanto, neste novo cenário, qualquer pessoa pode ser protagonista da mudança.
Carla Taíssa
Jornalista, escritora e designer de interiores, sou pós-graduada em Gestão, Inovação e Marketing, com atuação focada em assessoria de imprensa no setor de energia. Estudiosa e apaixonada por comunicação estratégica, design e sustentabilidade, busco traduzir ideias complexas em narrativas claras e impactantes. Minha trajetória une criatividade, técnica e sensibilidade para conectar marcas, pessoas e propósitos, especialmente em um setor tão essencial e transformador como o energético.
As informações e opiniões contidas neste material são de inteira responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão institucional do Energês.
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